terça-feira, 3 de maio de 2022
Ainda este ano Sines pode ter capacidade para reexportar gás para a Europa
Ainda este ano Sines pode ter capacidade para reexportar gás para a Europa, aponta o grupo de trabalho que nas últimas semanas estudou o assunto, num relatório a que o Expresso teve acesso
3 MAIO 2022 18:15
Miguel Prado
Jornalista
Oplano foi desenvolvido ao longo das últimas semanas, juntando, num grupo de trabalho, o Porto de Sines, a REN – Redes Energéticas Nacionais, o Governo, entre outras entidades. E o resultado foi um relatório que elenca várias soluções de curto, médio e longo prazo para posicionar Sines como um dos braços da Europa no aprovisionamento de gás natural. O relatório lista os prós e contras de várias opções, bem como os custos envolvidos.
Uma das soluções identificadas pelo grupo de trabalho permite vir a criar em Sines uma capacidade de reexportação de gás natural, com volumes inclusive maiores do que aqueles que Portugal importa para consumo interno. Portugal consome anualmente cerca de 5,5 mil milhões de metros cúbicos (5,5 BCM) de gás natural. Um investimento no Porto de Sines, com a ajuda de esforços diplomáticos, poderia acrescentar a essa capacidade de importação uma outra capacidade de recepção e reexportação imediata de até 6 BCM de gás natural.
A reexportação poderá ser uma opção interessante e viável dado que vários portos no centro e norte da Europa não têm condições para receber navios metaneiros de grande dimensão, como os que Sines recebe, sendo um porto de águas profundas. Sines poderia então acolher mais navios de grande dimensão, com 150 a 200 mil metros cúbicos, redistribuindo (numa operação designada transhipment) o respetivo gás natural liquefeito (GNL, ou LNG, em inglês) por navios menores, de até 50 mil metros cúbicos, que entregariam o gás noutros destinos europeus.
A 23 de abril o semanário “Nascer do Sol” já tinha avançado que o Governo estava a trabalhar com o Porto de Sines numa alternativa para levar gás ao Norte da Europa, partindo de uma ideia apresentada inicialmente pelo ministro da Economia, António Costa Silva, ao primeiro-ministro, António Costa. Esse trabalho resultou no relatório “LNG no atual contexto europeu e as oportunidades para o Porto de Sines”, um documento técnico que ficou pronto esta segunda-feira, 2 de maio, e ao qual o Expresso teve acesso.
“O Porto de Sines dispõe de uma solução potencialmente imediata (que pode estar disponível num prazo até 6 meses se houver capacidade de pressão sobre os fornecedores dos materiais a adquirir), com uma capacidade de oferta de 4,5 a 6 BCM/ano sem interferir com a normal operação do terminal de GNL”, refere o relatório do grupo de trabalho, que foi coordenado por José Luís Cacho, presidente do Porto de Sines.
Esta solução prevê que no atual terminal de GNL, operado pela REN, seja criada uma infra-estrutura para a descarga direta de gás de navios metaneiros de grande porte para embarcações de menor dimensão. Essa estrutura permitiria anualmente fazer operações ship to ship de até 1,8 BCM. A compra dos equipamentos de trasfega e defensas flutuantes e outros acessórios custaria 3 milhões de euros. O grupo de trabalho estima que possa estar operacional em seis meses.
Mas a esta estrutura somar-se-ia uma outra estrutura, com a utilização de dois cais de acostagem fora do terminal de GNL da REN e com capacidade para processar anualmente até 4,5 BCM. Esta solução custaria 4,5 milhões de euros, incluindo as mangas, tubagem e coletores em terra. O grupo de trabalho prevê igualmente seis meses para implementar esta opção “se for agilizada com ajuda diplomática a aquisição de materiais junto dos fabricantes”.
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A utilização destes dois cais de acostagem fora do terminal da REN permitiria a cada sete dias receber um navio com 150 mil metros cúbicos de GNL, que faria a transferência para três navios de 50 mil metros cúbicos cada em cerca de 19 horas. “No caso de um QFlex, navio utilizado pelo Qatar e com cerca de 216 mil metros cúbicos de GNL, a descarga para outros navios seria realizável em cerca de 27 horas”, pode ler-se no relatório.
“Mesmo com um ritmo de um navio para descarga por semana estaria disponível uma capacidade teórica de 4,5 a 6 BCM sem interferir com a capacidade do terminal de GNL, ou seja, Sines ficaria com uma capacidade de receção de praticamente 10 BCM, metade do qual seria reexportável”, refere o documento.
O relatório estima que a operação de enchimento de um navio com 50 mil metros cúbicos no terminal da REN custaria 242 mil euros (receita que ficaria em Portugal).
OUTRAS OPÇÕES
O estudo do grupo de trabalho também apontou uma hipótese de aplicação imediata, embora esta, por falta de escala, se apresente como pouco apelativa: trata-se de aproveitar as estruturas existentes no terminal da REN em Sines para fazer um carregamento de navios nos intervalos das operações normais de descarga de gás para o consumo nacional. Esta solução permitiria reexportar 0,4 a 0,6 BCM por ano, mas implicaria um investimento de 3,8 milhões de euros.
O estudo desenhou ainda um cenário de médio prazo, que seria mais demorado, em termos de implementação, mais oneroso, mas também com condições para posicionar Sines como um ponto de exportação de gás natural e hidrogénio verde no futuro.
Esta opção de médio prazo prevê aproveitar o terminal que a REN tem em Sines criando dois cais de acostagem (com caudais de enchimento de 8 mil metros cúbicos por hora), similares aos previstos na solução de curto prazo (esta fora do terminal da REN), mas com a vantagem de permitir que o navio metaneiro de maior parte (usado na importação de gás) não tenha de permanecer em Sines para a trasfega do gás.
Nesta solução o GNL importado seria descarregado para o terminal da REN, permitindo ao navio metaneiro de imediato seguir para outras paragens, e posteriormente carregado dos tanques da REN para os navios de menor porte que levariam o gás para outros mercados europeus, de forma flexível. Teria também a vantagem de preparar Sines para uma futura exportação de hidrogénio verde.
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Esta opção de médio prazo, sublinha o relatório, “é uma solução mais flexível que assegura melhor resposta logística”. Mas tem também custos acrescidos, já que implicará novos equipamentos mas também um reforço da capacidade das infraestruturas nacionais de gás. O investimento é estimado em 25 milhões de euros em equipamentos e tubagem, a que acresce a necessidade de reforçar a rede de gás com uma estação de compressão no Carregado, que custaria outros 25 milhões.
O relatório estima que a adaptação das infra-estruturas em Sines leve até dois anos para este cenário, mas a estação de compressão no Carregado pode não estar disponível em menos de três anos.
Para o longo prazo o grupo de trabalho também aponta possibilidades, como o reforço da interligação terrestre com Espanha. Isso permitiria escoar mais gás por gasoduto para o centro da Europa e diminuir o recurso à reexportação com pequenos navios. É ainda indicada a possibilidade de duplicação da capacidade de recepção de gás em Sines, com um novo cais de acostagem alinhado com o existente.
QUAIS AS LIMITAÇÕES DA PROPOSTA PORTUGUESA?
O grupo de trabalho reconhece que a abordagem para posicionar Sines como plataforma para redistribuir gás para a Europa se confronta com um conjunto de limitações, sendo a principal o facto de vários países já fazerem hoje o que Portugal planeia fazer, ou seja, o transhipment.
“De imediato, as principais ameaças à proposta de Portugal poderão surgir de países como a Espanha, Grécia, Itália e/ou Lituânia/Noruega que têm já em curso este tipo de transhipment”, refere o relatório.
Na análise de oportunidades e ameaças, são reconhecidas algumas fraquezas da abordagem nacional. Além de outros países europeus já explorarem soluções similares, há no mercado internacional uma escassez de embarcações disponíveis e o modelo económico-financeiro para a reexportação de gás é ainda “pouco robusto”.
Além disso, Portugal tem apenas um terminal de GNL (Sines) e uma capacidade limitada de armazenagem (Espanha tem sete terminais do género), há investimento a realizar (dependente de várias entidades) e “não há armadores portugueses com metaneiros de bandeira nacional”, o que deixará a estratégia portuguesa totalmente dependente da vontade das empresas internacionais de usar Sines em detrimento de outros terminais na Europa.
Contudo, a localização de Sines no Atlântico, no caminho (ou próximo dele) das exportações de gás dos Estados Unidos, da Nigéria e de outros produtos, o “suporte dos governos português e alemão” e o “baixo custo” de operação em terminais de GNL que Sines apresenta são apontadas como vantagens para posicionar Portugal no mercado da reexportação de gás.
Putin pode declarar oficialmente guerra à Ucrânia a 9 de maio
Putin pode declarar oficialmente guerra à Ucrânia a 9 de maio
CNN
Hoje às 13:21
Autoridades dos EUA e do Ocidente acreditam que Presidente da Rússia pode anunciar a guerra no Dia da Vitória, para efeitos de propaganda, e para poder recrutar mais russos para as forças militares
O presidente russo, Vladimir Putin, pode declarar formalmente guerra à Ucrânia a 9 de maio, decisão que permitiria a mobilização total das forças de reserva da Rússia, à medida que os esforços de invasão continuam a falhar. É nisso que acreditam autoridades americanas e ocidentais contactadas pela CNN.
9 de maio, conhecido na Rússia como "Dia da Vitória", comemora a derrota dos nazis no país em 1945. Há muito que autoridades ocidentais creem que Putin poderia aproveitar o significado simbólico e o valor da propaganda desse dia para anunciar uma conquista militar na Ucrânia, uma grande escalada de hostilidades - ou ambos.
As autoridades começaram entretanto a concentrar-se num cenário: o de Putin declarar formalmente guerra à Ucrânia em 9 de maio.
"Penso que ele tentará sair de sua 'operação especial'", disse o secretário de Defesa britânico, Ben Wallace, à rádio LBC na semana passada. "Ele está a preparar terreno para poder dizer 'olhem, agora é uma guerra contra os nazis, e o que eu preciso é de mais pessoas. Preciso de mais carne para o canhão russo."
Durante todo o conflito, Putin enquadrou continuamente a sua invasão da Ucrânia - um país com um presidente judeu - como sendo uma campanha de suposta "desnazificação", descrição que é rejeitada por historiadores e observadores políticos.
Wallace acrescentou que "não ficaria surpreso, e não tenho nenhuma informação sobre isso, se ele provavelmente declarasse neste primeiro de maio que 'agora estamos em guerra com os nazis do mundo e precisamos de mobilizar o povo russo em massa.'"
Uma declaração formal de guerra a 9 de maio poderia reforçar o apoio público à invasão. De acordo com a lei russa, também permitiria a Putin mobilizar forças de reserva e recrutar soldados, de a Rússia precisa desesperadamente, segundo que várias autoridades, no meio a uma crescente escassez de forças humanas. Autoridades ocidentais e ucranianas estimam que pelo menos 10 mil soldados russos já foram mortos na guerra, desde que a Rússia invadiu a Ucrânia há pouco mais de dois meses.
Esforço russo 'anémico' no campo de batalha
Depois de uma série de contratempos militares e logísticos, Moscovo concentrou esforços na região do Donbass, no leste da Ucrânia, que é a linha de frente do conflito Rússia-Ucrânia desde 2014.
Mas autoridades norte-americanas descreveram na segunda-feira o esforço de guerra russo como "anémico".
"Eles vão entrar e declarar vitória, e então retirarão as suas tropas, só para deixar os ucranianos a recuperá-la", disse uma fonte das autoridades oficiais a jornalistas num briefing do Pentágono. O responsável disse que os problemas que atormentam os militares russos desde o seu movimento inicial não foram corrigidos.
"Eles ainda sofrem de fracos comando e controlo, de moral baixa em muitas unidades, de logística abaixo do ideal", afirmou.
As forças russas também queriam evitar riscos que pudessem levar a mais baixas nas suas forças já esgotadas, disse a autoridade, descrevendo a guerra terrestre na área como "muito cautelosa, muito morna".
Enquanto isso, as forças ucranianas estavam a fazer progressos significativos para empurrar os russos para fora dos arredores de Kharkiv, na ponta noroeste da região do Donbass, disse a autoridade.
"É um esforço incrível, que não fez muitas manchetes e não recebeu muita atenção, mas é apenas mais uma peça da dura resistência ucraniana, que eles continuam a demonstrar", disse o responsável.
As outras opções de Putin para o 9 de maio
Faltando menos de uma semana para o Dia da Vitória de 9 de maio, Moscovo pode procurar outros lugares além do Donbass para fazer uma afirmação.
Outras opções incluem anexar os territórios separatistas de Luhansk e Donetsk no leste da Ucrânia, fazer um grande avanço para Odessa, no sul, ou declarar o controlo total sobre a cidade portuária de Mariupol, também no sul.
Os EUA têm relatórios de inteligência "altamente confiáveis" de que a Rússia tentará anexar Luhansk e Donetsk "algum dia em meados de maio", disse o embaixador dos EUA na OSCE, Michael Carpenter, esta segunda-feira. Há também indicações de que a Rússia poderá estar a planear declarar e anexar uma "república popular" na cidade de Kherson, no sudeste do país.
O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, disse esta segunda-feira que há "boas razões para acreditar que os russos farão tudo o que puderem para usar" o 9 de maio para fins de propaganda.
"Vimos os russos duplicarem os seus esforços de propaganda, provavelmente, quase certamente, como meio de criar uma distração sobre as suas falhas táticas e estratégicas no campo de batalha na Ucrânia", disse Price num briefing do Departamento de Estado.
Price acrescentou que "seria uma grande ironia se Moscovo aproveitasse a ocasião do 'Dia da Vitória' para declarar guerra, o que por si só permitiria que eles recrutassem soldados de uma forma que não conseguem fazer agora, de uma maneira que equivale a revelar ao mundo que o seu esforço de guerra está a falhar, que eles estão a tropeçar na sua campanha e nos seus objetivos militares."
"Estou bastante confiante de que ouviremos mais de Moscovo até 9 de maio", acrescentou Price. "Estou bastante confiante de que ouviremos mais dos Estados Unidos, dos nossos parceiros, incluindo nossos os da NATO, também até 9 de maio."
5 coisas que importam hoje: Combustíveis, Mariupol, Papa, Ocidente e Ómicron
5 coisas que importam hoje: Combustíveis, Mariupol, Papa, Ocidente e Ómicron
Novo Dia CNN
ter, 03/05/2022 08:47
Ter, 03 mai 2022
O Papa Francisco disse estar pronto se reunir com Vladimir Putin em Moscovo e que falou com Zelensky no primeiro dia da guerra, mas que "agora não é altura de ir a Kiev". Por cá, contas feitas, os portugueses foram enganados pelas gasolineiras que desceram os combustíveis muito menos do que se previa. Estas e outras notícias para ler esta terça-feira. Bom dia!
Por Andreia Miranda
Vestidos de gala, brilhos, corpetes, dourados, luvas e ousadia. O Baile do Met, que aconteceu esta magrugada em Nova Iorque, teve um pouco de tudo no desfile das estrelas pela escadaria do museu Metropolitan. Veja aqui as fotografias. [Na foto, Kendall Jenner por Justin Lane/EPA]
1. Combustíveis
Combustíveis
Terça-feira é dia de fazer contas aos preços dos combustíveis e, hoje, quem ouviu o governo no final da semana passada, ou leu as notícias com as previsões de preços, percebe que foi enganado. No entanto, não foi enganado pelo governo nem pelos jornais, mas sim pelas gasolineiras que ficaram com a diferença resultante da descida do imposto que entrou em vigor ontem. O primeiro-ministro parece ter previsto que tal ia acontecer e, em tom de aviso, prometeu que a ASAE iria controlar a descida dos preços dos combustíveis pelas gasolineiras.
2. Mariupol
Mariupol
Mais de 200 civis continuam presos no interior do complexo metalúrgico da Azovstal em Mariupol, onde os últimos combatentes ucranianos se encontram cercados há várias semanas. À Reuters, o presidente da Câmara da cidade costeira revela que cerca de 100 mil pessoas continuam na cidade, mesmo após a ocupação pelas tropas russas. Na segunda-feira, os civis retirados no comboio humanitário no sábado não conseguiram chegar a Zaporizhzia, como estava previsto, dada a complexidade da operação.
3. Papa
Papa
O Papa Francisco disse estar pronto para se reunir com Vladimir Putin em Moscovo. Em entrevista ao Corriere della Sera, Francisco disse ter dado a ordem a um cardeal para enviar a mensagem de que está disposto a ir a Moscovo falar com Vladimir Putin. No entanto, o Sumo Pontífice diz que ainda aguarda uma resposta do presidente russo, mas receia que Putin "não possa, nem queira fazer um encontro nesta altura".
4. Ocidente
Ocidente
Não é defensora das ideias europeias e tem na Rússia um dos seus inimigos históricos, porém, a Turquia posicionou-se como o principal mediador de um possível processo de paz entre Kiev e Moscovo. Apoiado militarmente pela NATO, o regime de Erdogan mantém alguma proximidade a Putin, particularmente desde a tentativa de golpe de Estado em 2016. Dois especialistas explicaram à CNN Portugal o que move Ancara neste equilíbrio tão complexo entre o Ocidente e o Oriente e qual o interesse da Turquia nas negociações de paz entre Ucrânia e Rússia.
5. Ómicron
Ómicron
Já tomou as três doses da vacina contra a covid-19 e já esteve infetado com covid-19? Então saiba que tem uma proteção de 83% contra a variante Ómicron. A conclusão é de um estudo do Instituto Nacional de Saúde Pública de Quebec, no Canadá, ainda na plataforma MedRix e em pré-publicação à espera da aprovação dos pares. No caso de pessoas com duas doses da vacina, a proteção diminui e se nunca tiver estado infetado ainda mais. Saiba mais sobre o estudo neste artigo.
Acontece hoje
Liberdade de Imprensa
O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, proclamado pela ONU em 1993, é assinalado sob o lema "Jornalismo na Era Digital", para se refletir sobre o impacto do digital na liberdade de expressão, segurança dos jornalistas, acesso à informação e privacidade.
Cultura
Uma exposição inédita de livros apreendidos e proibidos de circular pelos Serviços de Censura, durante a ditadura do Estado Novo, fica patente a partir de hoje na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, até 3 de setembro.
Justiça
O vereador da Câmara de Barcelos Domingos Pereira conhece hoje a sentença do caso em que está acusado de corrupção passiva, por alegadamente ter recebido 10 mil euros em troca da garantia de um emprego no município. A leitura do acórdão, no Tribunal de Braga, está agendada para as 14:00.
IPST
O Instituto Português do Sangue e da Transplantação divulga dados da atividade de colheita e transplantação de órgãos, tecidos e células em 2021, que indicam que a doação e transplantação de órgãos, tecidos e células está a aumentar em Portugal, após a reorganização da atividade dos hospitais provocada pela pandemia.
Guterres
O secretário-geral da ONU prossegue hoje a sua visita em África, deslocando-se à Nigéria, depois de ter estado no Senegal e Níger, defendendo mais apoio para ultrapassar o impacto da covid-19 e da guerra na Ucrânia e para combater o terrorismo.
"Foi preciso recolher os civis debaixo dos escombros."
Líder do Batalhão Azov explica, em entrevista exclusiva à TVI/CNN Portugal, como é difícil retirar civis de Azovstal
E finalmente
Com o verão à porta, aumenta a procura pelas tão chamadas “dietas milagrosas” que alegam oferecer resultados rápidos e sem demasiado esforço. Qual o melhor caminho para obter resultados a longo prazo? Saiba neste artigo quais são os conselhos dos especialistas para conseguir atingir o peso ideal.
"Colocar todo o ênfase em ajudar a Ucrânia a lutar" é o "maior erro": a análise de um ex-tenente dos EUA que previu desastre no Afeganistão
Expresso
GUERRA NA UCRÂNIA
"Colocar todo o ênfase em ajudar a Ucrânia a lutar" é o "maior erro": a análise de um ex-tenente dos EUA que previu desastre no Afeganistão
Daniel L. Davis Direitos Reservados
Destacado para o Iraque, em 1991 e em 2009, e para o Afeganistão, em 2005 e 2011, Daniel L. Davis recebeu a Estrela de Bronze, a quarta medalha mais importante nas Forças Armadas dos EUA, por duas vezes. O especialista em assuntos de defesa e autor de "The Eleventh Hour" conta, nesta entrevista ao Expresso, por que está alarmado com o ponto a que chegou a guerra na Ucrânia, e aponta tudo o que pode acontecer de errado para o mundo se ver mergulhado num conflito à escala global. O risco é "enorme" e, apesar da guerra dos ucranianos ser "razoável e justa", o ex-militar diz que a aposta na via diplomática deve ser uma prioridade face à confrontação entre as partes
3 MAIO 2022 17:22
Catarina Maldonado Vasconcelos
Catarina Maldonado Vasconcelos
Daniel L. Davis garante que o mundo tem motivos para se preocupar: a guerra na Ucrânia pode entrar num momento de alarme internacional, com outros países a envolverem-se no conflito. Daí a uma guerra mundial é um passo. A Rússia, que tem "0% de hipóteses" de bater a NATO, só poderia responder com o uso de armas nucleares, explica o antigo tenente-coronel, que ganhou notoriedade em 2012, quando voltou do Afeganistão e publicou um relatório em que descrevia a derrota como iminente, quando os líderes militares e civis diziam aos norte-americanos que tudo corria bem. Os acontecimentos que se sucederam provaram que estava certo.
Agora, com os olhos postos na Ucrânia, o especialista em segurança internacional e defesa, que se aposentou do Exército dos Estados Unidos da América após 21 anos de serviço, começa a antecipar uma vitória russa no Donbas - isto porque Moscovo soube ler e aprender com os próprios erros. Daniel L. Davis alerta que o artigo n.º 5 do Tratado da NATO - que estipula que um ataque a um país membro é um ataque a todos - será posto em prática no dia em que qualquer território for ameaçado: e, se assim for, o uso de armas nucleares, o último reduto e o mais extremo, seria a "única forma" que a Rússia teria "de se defender" .
As tropas russas não começaram bem a guerra. Havia grandes problemas militares e logísticos...
Sim, o maior problema que vi, sobretudo inicialmente, foi a inadequação do treino militar russo. Os militares não foram bem treinados em termos táticos, em unidades e individualmente, mas também a um nível sénior, no comando das operações. A um nível operacional, também não foram muito bem treinados. Isso foi demonstrado com a estratégia adotada, com a Rússia a decidir dividir as suas tropas, atacando de quatro direções diferentes na Ucrânia. Isso fez com que nenhuma ofensiva fosse capaz de dar resposta à resistência inimiga que enfrentou, dando tempo à Ucrânia para recuperar do choque inicial, e, especialmente nas áreas à volta de Kiev, possibilitando que causassem alguns prejuízos às tropas de Moscovo. Isto a um nível estratégico...
Ucranianos cercam um tanque russo destruído perto de Makariv, Kiev
Ucranianos cercam um tanque russo destruído perto de Makariv, Kiev Anadolu Agency
Os militares não foram bem treinados em termos táticos, em unidades e individualmente, mas também a um nível sénior, no comando das operações.
E a nível tático?
Ao nível tático, houve abordagens terríveis. Um vídeo muito divulgado em março mostrava uma coluna imensa de tanques a dirigir-se lentamente para Kiev, que foi travada pela artilharia ucraniana, que fez explodir uma série de tanques. Nem queria acreditar que cometessem um erro desta envergadura, porque são operações de blindagem tão simples de fazer em qualquer parte do mundo... Por isso, não se pode colocar os tanques daquela maneira numa área com construções, porque é exatamente isto que pode acontecer. Este foi o problema inicial.
No entanto, a Rússia mostrou que consegue aprender, tanto a nível tático como a nível estratégico. Não foi coisa pequena a liderança russa ter admitido que cometeu um erro, ter retirado de forma absoluta todas as tropas do eixo de Kiev e tê-las feito deslocar-se centenas de quilómetros, para o leste. Colocar todas as atenções no Donbas faz todo o sentido e mostra que as Forças Armadas estão dispostas a aprender com os seus erros e mudar muito rapidamente. Agora que centralizaram todas as suas forças no Donbas e que demonstraram que taticamente são capazes de aprender com os próprios erros, não repetindo as mesmas falhas, estão a começar a provocar mais prejuízos no adversário.
Se [os russos] vencerem o combate no Donbas não se trata apenas de vencer esta batalha. O que significaria materialmente seria a destruição potencial da maioria das Forças Armadas ucranianas que restam.
Militares ucranianos recebem cuidados médicos em Kramatorsk
Militares ucranianos recebem cuidados médicos em Kramatorsk Yasuyoshi Chiba
A este ponto, o que sabemos sobre a batalha no Donbas é que os russos conseguiram diminuir dramaticamente a taxa de mortalidade e aumentá-la do lado ucraniano. Por isso, estão a começar a ter algum sucesso a penetrar a resistência ucraniana. Ainda não fizeram nenhuma conquista significativa, mas já a enfraqueceram de forma consistente, com a saturação de artilharia, rockets e ataques aéreos. Se conseguirem algum avanço, se enfraquecerem o a defesa ucraniana, terão muitas formações militares na reserva que depois poderão ser usadas para seguir em frente. É muito cedo para dizer, mas começa a ver-se uma vitória russa no Donbas.
Então é justo dizer que a Rússia começou a vencer esta guerra quando a deslocou para leste?
Começou certamente a vencer esta batalha. Ainda há um longo período de guerra pela frente, mas, como tenho defendido, se vencerem o combate no Donbas não se trata apenas de vencer esta batalha. O que significaria materialmente seria a destruição potencial da maioria das Forças Armadas ucranianas que restam. Eles têm lá entre 40 e 60 mil militares e o objetivo russo é destruir as unidades ucranianas, não tanto capturar territórios ou cidades. Querem sobretudo destruir a capacidade da Ucrânia de se defender. Se conseguirem travar, pela destruição total ou pela captura, 40 ou 50 mil unidades, isso deixará a Ucrânia com muito menos recursos para defender o resto do país. Nesse momento, torna-se possível as forças de Moscovo avançarem até Odessa ou Kharkiv (Carcóvia) e, se dominarem uma dessas cidades, podem mais uma vez ameaçar Kiev. Ainda serão necessários muitos combates, e isso requer tempo.
Se a Ucrânia conseguir aguentar-se no Donbas e prevenir o sucesso do cerco russo, será impossível para Moscovo aventurar-se para Odessa ou para Kharkiv, porque haverá milhares de tropas ucranianas no meio. Tudo, neste momento, depende dos combates no Donbas.
Espera que o exército russo altere alguma coisa até 9 de maio, o "dia da vitória"? O que é expectável ver no campo de batalha?
Nada. Esse é um desejo que acredito que eles adorariam não ter expressado. Não vão conseguir nada até 9 de maio. Mesmo que fizessem a primeira penetração significativa, não conseguiriam ter uma vitória a 9 de maio. No máximo, o que poderão conseguir é alguma vitória em Mariupol, mas acredito que a Rússia não vai fazer nada de diferente na Ucrânia. Não têm nada para mostrar ainda...
Alguns comentadores russos dizem que é uma inevitabilidade conquistarem a Moldávia. Se o conflito se espalha para qualquer lugar, além das fronteiras ucranianas, tornar-se-á ainda mais provável que a guerra passe para outro nível.
Qual diria ser a probabilidade de esta guerra ir além da fronteira com a Moldávia?
É possível. Temos visto os ataques dos últimos dias e vemos a Moldávia a conversar com a Roménia acerca de possivelmente unificarem os seus países para a Moldávia poder juntar-se à NATO. Vemos ambas, a Ucrânia e a Rússia, ironicamente, a falarem sobre a Rússia invadir a Transnístria e sobre o que a Moldávia faria. Alguns comentadores russos dizem que é uma inevitabilidade conquistarem a Moldávia. E, claro, se o conflito se espalha para qualquer lugar, além das fronteiras ucranianas, tornar-se-á ainda mais provável que a guerra passe para outro nível. É um perigo tão grande, a Moldávia e a Transnístria são tão pequenas, em comparação... Mas é o conceito de atravessarem mais uma fronteira que alarmará muitas pessoas.
Cemitério em Lviv
Cemitério em Lviv Leon Neal
Moscovo tem aumentado a retórica de ameaça ao Ocidente, e já disse até que os países ocidentais estão envolvidos no conflito se fornecem armamento à Ucrânia. É possível que a Rússia ataque algum desses Estados com mísseis, por exemplo?Esses comentários precederam as declarações do secretário de Estado da Defesa Lloyd Austin sobre as intenções dos Estados Unidos de enfraquecerem ao máximo as forças russas. Mas também se seguiram às declarações do ministro da Defesa britânico, que considerou que seria justo Kiev considerar atacar alvos em território russo utilizando mísseis disponibilizados pelo Reino Unido. E os russos, incluindo o próprio Putin, disseram que se forem utilizadas armas fornecidas pela NATO para atacar e destruir alvos na Rússia, ou para matar russos, reservam-se o direito de retaliação.
Não especificaram o que isso significa, mas as implicações seriam, a meu ver, que poderiam atacar algumas das forças britânicas, ou, pelo menos, algumas áreas onde o material entra na Polónia. Não é inconcebível que a Rússia use mísseis hipersónicos para destruir depósitos de munições na Polónia. E, mais uma vez, esse seria mais um acontecimento que faria escalar a guerra além da Ucrânia, porque, assim que um ataque atinja território da NATO, podem ter a certeza de que, no mesmo dia, seria invocado o artigo n.º 5. Esse risco é enorme; é, pelo menos, possível.
E, para sermos mais claros, esse risco é de uma guerra mundial...
Esse é o verdadeiro risco, porque a Rússia já encara isto há bastante tempo como um conflito entre a NATO e Moscovo. A Rússia acredita que esta é uma luta existencial, e, desde o início, defende que o Ocidente quer destruí-la. Não quer proteger a Ucrânia, mas destruir a Rússia, é o que sentem... E comentários como estes, do ministro da Defesa britânico e do secretário de Estado norte-americano, aumentam essa sensação. Os comentários de Putin e Lavrov sobre possivelmente usarem armas nucleares têm como motivação o medo, porque eles sabem que não aguentariam enfrentar a NATO num conflito.
A Rússia já terá sorte se conseguir vencer esta grande batalha na Ucrânia, mas perto da sua fronteira. Sabem que têm 0% de hipóteses de vencerem uma guerra contra a NATO. A única forma que teriam de se defender de ataques da NATO seria com armas nucleares, ponto final. Eles sabem isto, e, se chegar a esse ponto, também sabem que será uma ameaça existencial para a Rússia. Não seria de todo inesperado que a Rússia usasse armas nucleares, e é por isso que sou tão direto dizendo que temos de parar isto.
A melhor forma de preservar a segurança dos membros existentes da NATO é terminar esta guerra rapidamente. Isso significa algum tipo de negociação ou acordo.
Como se trava esta guerra, neste momento, já com os ânimos tão exaltados, acusações e ameaças de parte a parte e as negociações suspensas porque "não há condições" para tal?
Em primeiro lugar, temos de enfrentar e reconhecer esta realidade dura e fria: a melhor forma de preservar a segurança dos membros existentes da NATO é terminar esta guerra rapidamente. Isso significa algum tipo de negociação ou acordo. O problema que temos neste momento, e que decorre do nosso maior erro, é estarmos a pôr todo o ênfase no combate e em ajudar a Ucrânia a lutar. Estamos a empenhar quase zero esforços na via diplomática. Parece que estamos a tentar encorajar a Ucrânia a aguentar-se ainda mais e não a fazer qualquer concessão ou negociação. E o problema é que há muito poucas razões para acreditarmos que a Ucrânia pode superar militarmente o adversário, já que o compromisso claro da Rússia é vencer esta guerra. Temos de reconhecer que a probabilidade de sucesso é muito pequeno e o risco de escalada para uma guerra nuclear é bastante elevado.
Temos de redirecionar o nosso foco, e pôr pelo menos tanto ênfase num acordo negociado quanto o que estamos a colocar para terminarmos esta guerra a nível militar. Isso reduzirá o risco de escalada.
Já foram reportados alguns 'fogos' em território russo, na fronteira. A Ucrânia nunca se assumiu responsável por eles, mas não há outra explicação, certo? A Ucrânia pode realmente seguir os conselhos do Reino Unido?
Sim, claro que é a Ucrânia, quem mais poderia ser? A Rússia não vai fazer explodir os seus próprios depósitos, porque precisa deles para lutar. A Ucrânia permanece calada em relação a isso, porque a Rússia já tinha ameaçado retaliar contra alvos sensíveis em Lviv e em Kiev. Querem negá-lo e ter alguma credibilidade para não receberem retaliação, mas claro que o fizeram. E, repare, isto é uma guerra. A Rússia tem atacado infraestruturas de norte a sul do país. É válido que a Ucrânia também defina alvos, mas isso comporta riscos de escalada.
Militarmente, em termos de equipamento militar e armamento, a Ucrânia está a "lucrar" de alguma forma com os erros dos EUA no Afeganistão?
Teve alguma utilidade, mas falamos de uma mão cheia de helicópteros que são até muito vulneráveis aos ataques russos. É por isso que não os vemos voar, porque podem ser derrubados muito rapidamente. Podem ser utilizados em alguns lugares, mas não são muito úteis em combate. E isso explica-se pela realidade dos sistemas aéreos russos, que continuam intactos. A Ucrânia tem algumas aeronaves, mas estão muito danificadas, porque a Rússia atingiu-as logo no início e mantém as suas operacionais.
Há umas semanas foi anunciado que tinham sido fornecidas peças, para que mais 20 aviões ficassem operacionais. Não ouvimos, no entanto, comentários posteriores acerca de como eles foram usados. Não vão voar porque a frota russa continua totalmente operacional - assim que as aeronaves ucranianas levantem voo, vão ser derrubadas.
A Rússia continua a ser superior à Ucrânia: têm mais tanques, mais artilharia, a capacidade de produzir mais armas e munições, bem como combustível. Mesmo com toda a ajuda recebida do Ocidente, não acredito que a Ucrânia consiga vencer.
Com a sua experiência em campos de batalha e conhecimento sobre guerra, alguma coisa ainda o surpreende neste conflito?
Eu fui surpreendido pelo quão mal a Rússia se saiu taticamente no começo. Não havia qualquer razão para serem tão maus, têm a sua própria história na II Guerra Mundial para estudar, sobretudo as táticas e operações. Parece que nem estudaram a própria história, e muito menos a operação norte-americana no Iraque, em 2003, ou a Tempestade no Deserto, em 1991. Também fui surpreendido pela efetividade da defesa ucraniana, porque nem eram um exército há uns anos. Tinham 60 mil forças e, durante oito anos, foram crescendo, mas não acreditava que pudessem bater-se tão bem.
A Rússia não está a ser tão boa quanto eu pensava, só que continua a ser superior à Ucrânia: têm mais tanques, mais artilharia, a capacidade de produzir mais armas e munições, bem como combustível. A Rússia detém superioridade aérea. Como esses fatores persistem, mesmo com toda a ajuda recebida do Ocidente, não acredito que a Ucrânia consiga vencer.
Quando a guerra começa, torna-se muito feia muito rapidamente. Falo de milhares de anos da História humana. Quando a guerra é iniciada, os piores instintos humanos são despertados.
O Presidente norte-americano disse, de forma contundente e direta, que a Rússia estava a cometer genocídio, mas outros líderes têm sido mais cautelosos. Temem a escalada da guerra, de que falou? Ou têm mesmo dificuldade em aferir, enquanto decorre a guerra, se se trata de genocídio?
Não é genocídio, é uma guerra. É isto que acontece durante as guerras, é horrível. É por isso que tenho dito tantas vezes, ao longo da minha carreira, mas também desde que me aposentei, que a guerra deve ser o último recurso absoluto. Só deve ser utilizada se a segurança nacional de um país é ameaçada. Não pode ser utilizada porque se pensa que talvez, mais tarde, algo negativo possa acontecer. Não, apenas se a segurança física de um país está em risco. É esse o caso da Ucrânia, neste momento.
A guerra dos ucranianos é razoável e justa, mas a Rússia poderia ter feito muitas outras coisas em vez disto. Mas escolheu a guerra, e é por isto que a guerra é tão horrível: quando começa, torna-se muito feia muito rapidamente. Falo de milhares de anos da História humana. Quando a guerra é iniciada, os piores instintos humanos são despertados. Temos sempre atrocidades, temo-las em cada uma das guerras. É impossível travá-las. Repare, no Ocidente não se fala muito disto, mas há também muitas acusações de crimes de guerra ucranianos. Os ucranianos são pessoas também, e não conseguem assistir a estas atrocidades sem fazerem nada. E quem perde? São os civis de ambos os lados: os russos no Donbas, por exemplo, e os ucranianos em toda a parte. Algo tem de ser feito, e isso significa encerrar esta guerra rapidamente.
Mesmo os julgamentos de Nuremberga não foram possíveis durante a II Guerra Mundial. Até terminarmos a guerra, podemos abrir processos, usar palavras como 'genocídio', mas isso não fará qualquer diferença. Não tem efeitos concretos, não muda nada e não protege ninguém, sobretudo a população que continua em risco de morrer. Paremos de matar primeiro, e depois poderemos acusar.
As acusações só servem para enfurecer a Rússia?
Sim, mas também deixam os países ocidentais e os ucranianos ainda mais zangados, se é que isso ainda é possível.
"Foi preciso recolher os civis debaixo dos escombros": líder do Batalhão Azov explica como é difícil retirar civis de Azovstal CNN Portugal
"Foi preciso recolher os civis debaixo dos escombros": líder do Batalhão Azov explica como é difícil retirar civis de Azovstal
CNN Portugal
Hoje às 01:05
De acordo com o Sviatoslav Palamar, cerca de 600 pessoas continuam retidas no território da fábrica, "algumas gravemente feridas"
Um dos combatentes do Batalhão Azov, que está a defender o complexo siderúrgico de Azovstal, explicou à CNN Portugal como o processo de retirada de civis daquela fábrica está a ser dificultado pelos destroços espalhados no local e pelo desrespeito das forças russas.
Em entrevista exclusiva CNN Portugal (do mesmo grupo da TVI), o vice-comandante Sviatoslav Palamar contou que a Rússia "não está a respeitar o cessar-fogo". "A fábrica Azovstal está constantemente sob bombardeamentos russos. É bombardeada com artilharia naval, artilharia de rockets, tanques. Também somos alvo de bombardeamentos a partir de aviões", apontou.
Esta segunda-feira, "nenhum civil foi retirado do território de Azovstal", afirmou, lembrando, porém, que durante o fim de semana foi possível "retirar cerca de 100 pessoas", entre as quais "senhoras idosas e crianças menores, dos quatro aos 16 anos", mesmo com o atraso da abertura do corredor humanitário. Isto porque, no primeiro dia da evacuação, a retirada de civis estava prevista para as 06:00 da manhã, mas tal só foi possível às 18:25, disse.
Mas o processo de retirada de civis também está a ser dificultado pelos destroços que estão espalhados no local: "Foi preciso recolhê-los [aos civis] debaixo dos escombros, numa espécie de operação de busca e resgate. Também devo salientar que o território da fábrica está coberto de projéteis não detonados, como rockets, bombas e outros materiais perigosos. É muito difícil para as pessoas de idade e crianças passarem por tudo isto."
"Debaixo destes escombros estão ainda mais pessoas, mais civis. Seria muito bom se tivéssemos um equipamento especial, que nos pudesse ajudar a retirar as lajes mais pesadas. De qualquer forma, vamos manter as nossas posições", garantiu Palamar, admitindo esperar receber ajuda de organizações internacionais e de "políticos mundiais fortes" que consigam garantir o sucesso deste processo de evacuação.
De acordo com o vice-comandante do Batalhão Azov, cerca de 600 pessoas continuam retidas no território da fábrica, "algumas gravemente feridas". E o tratamento dos feridos também não é fácil, acrescentou, lembrando que o hospital local foi atingido por bombardeamentos, que destruíram a sala de operações. "Perdemos muitos equipamentos e os instrumentos cirúrgicos ficaram debaixo dos escombros", contou.
Nesta entrevista, Palamar lamentou a "reação lenta do Ocidente" perante a situação difícil que se vive em toda a Ucrânia: "Já estamos nisto há 68 dias e a cada novo dia há novas vítimas e novos crimes de guerra cometidos pelos militares russo
segunda-feira, 2 de maio de 2022
O artigo antecedente, guerra na UCRÂNIA, e o cérebro de Putin (VER FOTO), é ESCLARECEDOR DO QUE SE PASSA NOS BASTIDORES! LEIAM COM TODO O CUIDADO, E PARTILHEM AMPLAMENTE POR TUDO E TODOS QUE CONHEÇAM, PARA QUE NÃO FIQUEM ILUSÕES DO GRAVÍSSIMO PROBLEMA QUE ESTAMOS A ENFRENTAR. REZEM A JESUS CRISTO E SUA MÃE MARIA SANTÍSSIMA, PARA QUE ILUMINEM O CÉREBRO DO PAPA (a quem deveria ser enviado o artigo em causa) e iluminem o cérebro dos que terão hipótese em procurar soluções que contornem esta trágica situação! DEUS TENHA COMPAIXÃO DE NÓS
LEIAM COM TODO O CUIDADO, E PARTILHEM AMPLAMENTE POR TUDO E TODOS QUE CONHEÇAM, PARA QUE NÃO FIQUEM ILUSÕES DO GRAVÍSSIMO PROBLEMA QUE ESTAMOS A ENFRENTAR. REZEM A JESUS CRISTO E SUA MÃE MARIA SANTÍSSIMA, PARA QUE ILUMINEM O CÉREBRO DO PAPA (a quem deveria ser enviado o artigo em causa) e iluminem o cérebro dos que terão hipótese em procurar soluções que contornem esta trágica situação! DEUS TENHA COMPAIXÃO DE NÓS!
GUERRA NA UCRÂNIA Do ocultismo à veneração do nazismo e do imperialismo russo: quem é o homem a quem chamam "o cérebro de Putin"? Aleksandr_Dugin Fars Media Corporation (Https://Commons.Wikimedia.Org/Wiki/File:aleksandr_dugin_13981126000.Jpg) Aleksandr Dugin tem como temas centrais da sua doutrina o nazismo, ocultismo e o fim dos tempos. Considerado como o "Rasputin de Putin", ascendeu de forma misteriosa aos quadros militares mais elevados e defende que só há duas hipóteses para o país: a glória imperialista ou o absoluto fracasso 2 MAIO 2022 14:46 Catarina Maldonado Vasconcelos Catarina Maldonado Vasconcelos Tido no passado como um "marginal excêntrico", Aleksandr Dugin tornou-se em pouco tempo um "especialista" russo próximo ao poder. Em 2001, pouco depois de Vladimir Putin ter assumido a Presidência da Federação Russa, o "filósofo" já tinha estabelecido laços estreitos com a administração presidencial, com os serviços secretos, Forças Armadas russas e mesmo com a Duma [Parlamento russo]. De acordo com o site norte-americano "The Bulwark", chegou mesmo a tornar-se consultor do presidente da Duma, Gennady Seleznev, e do principal conselheiro de Putin, Sergei Glazyev. Nesse momento, a imprensa russa, ainda relativamente livre, começou a caracterizar o "eurasianismo de Dugin" como uma nova ideologia favorecida pelo Estado. O “movimento da Eurásia”, a doutrina que pedia resistência em relação aos "atlanticistas", influenciou funcionários do Governo, órgãos dos 'media' locais e membros de serviços secretos e de segurança do país. Em 2003, o movimento já se tinha internacionalizado e estava presente em 29 países da Europa, América e Médio Oriente, bem como nas ex-repúblicas soviéticas. A sua ala mais ativa era a União da Juventude Eurasiática, muito focada no ativismo pró-Kremlin na Ucrânia. MAS AFINAL QUEM É ALEKSANDR DUGIN? Há mais de 25 anos que Aleksandr Dugin, apelidado de o "cérebro de Putin" ou até de "Rasputin de Putin", fala sobre uma eterna guerra civilizacional entre a Rússia e o Ocidente e sobre o destino da Rússia de construir um vasto império eurasiático, começando com a "reconquista" da Ucrânia. A guerra que eclodiu a 24 de fevereiro é um marco que a visão do dissidente e "filósofo" político já profetizava. Não há provas concretas de que o homem de 60 anos mantenha contacto com Vladimir Putin, mas a influência política que Aleksandr Dugin exerce é inegável, tal como a sua proximidade às classes dominantes e à elite russa, sustenta o site "The Bulwark". O "Financial Times" em Moscovo entrevistou várias vezes esta figura controversa e admite não ter conseguido decifrar o grau de envolvimento de Aleksandr Dugin com Putin. O FASCISMO E O OCULTISMO DE ALEKSANDR DUGIN Aleksandr Dugin é um autoproclamado fascista, embora seja dos que defendem que "o verdadeiro fascismo nunca foi tentado". Tentou abandonar o rótulo, mas a ideologia que professa não mudou muito. Num livro datado de 2017, que versava sobre a ascensão do novo nacionalismo na Rússia, é caracterizado como "um ex-dissidente, propagandista, 'hipster', poeta, guitarrista, que emergiu da era libertina e boémia de Moscovo pré-perestroika para se tornar um intelectual agitador, um conferencista na academia militar e, finalmente, um agente do Kremlin". A obsessão que manteve mais presente ao longo da vida foi o ocultismo. Um vídeo de 1995 mostra o dissidente político, em Moscovo, a exaltar o legado do mágico e mercenário Aleister Crowley, por meio de um poema. Na sua primeira aparição na televisão russa, em 1992, foi descrito como um "comentador especialista" num documentário que explorava os segredos esotéricos do Terceiro Reich, que afirmava ter estudado nos arquivos do KGB. A VIDA E OBRA... ACERCA DA MORTE Apesar de hoje ser crítico daqueles a que chama de "nazis ucranianos", em tempos escreveu um poema que enunciava o advento apocalíptico de um "avatar", que culminava com um "radiante Himmler" a emergir do túmulo. Mais tarde, Aleksandr Dugin negou a autoria destes versos, mas o excerto já tinha sido publicado no seu site com um pseudónimo que já tinha reconhecido como seu. A obra de Aleksandr Dugin também inclui um ensaio, datado de 1997, que propunha que o assassino em série russo Andrei Chikatilo, autor da morte de mais de 50 mulheres e crianças entre 1978 e 1990, deveria ser considerado um praticante de "sacramentos" dionisíacos nos quais o algoz e a vítima transcendem o seu "dualismo metafísico" e se tornam um só. Muitas declarações lhe são atribuídas no que concerne ao júbilo de viver no “fim dos tempos”. Muitos detalhes da biografia de Dugin são desconhecidos, também devido a uma mistificação deliberada. Uma das teorias defendidas é a de que o pai do filósofo russo era coronel ou tenente-general do GRU, a temível agência de inteligência militar soviética, tendo usado essa posição para facilitar o acesso às elites militares. No entanto, o investigador Anton Shekhovtsov afirma que o pai de Aleksandr Dugin era uma autoridade da alfândega soviética, mais tarde russa. O jornalista do "Financial Times" que entrevistou Dugin alegou que as travessuras juvenis e atos de rebeldia do dissidente político - que incluíam o envolvimento, aos 19 anos, num círculo que se interessava pelo misticismo com uma inclinação neofascista e que se reunia em locais subterrâneos - fizeram com que o pai fosse transferido do GRU para o serviço de alfândega. Expulso da faculdade por manter atividades controversas, como a tradução e publicação 'samizdat' [método que contornava a censura soviética] de obras com uma inclinação mística do intelectual italiano de extrema-direita Julius Evola, Aleksandr Dugin chegou a exercer como professor de idiomas e tradutor. Em 1988, contudo, já estava enredado no movimento "patriótico, antissionista e antissemitista" designado "Memória", tendo sido expulso por práticas satânicas. Mais tarde, viajou para a Europa e começou a estabelecer laços com figuras da extrema-direita, como o autor francês do contra-iluminismo Alain de Benoist. A DEFESA DO SANGUE E DA TERRA Após a dissolução da União Soviética, Aleksandr Dugin passou a envolver-se em vários grupos marginais que tentavam sintetizar a ideologia de extrema-esquerda e extrema-direita. Esses movimentos incluíram o Partido Nacional Bolchevique que cofundou com o poeta Eduard Limonov. Num ensaio de 1992, Aleksandr Dugin fez a defesa do termo "vermelho-castanho", que dizia serem "as cores naturais do [nosso] sangue e solo". Outro artigo, de 1997, saudava o renascimento de um novo fascismo russo, com as cores da terra e do sangue. Quando concorreu à Duma, em 1995, pelo distrito de São Petersburgo, o filósofo russo obteve, no entanto, menos de 1% dos votos, apesar do cartaz de campanha que prometia: "Os segredos serão revelados." A ascensão aconteceu sem a opinião pública se ter dado conta. As ligações misteriosas a os militares russos levaram-no, durante a década de 1990, a tornar-se professor na Academia Militar do Estado-Maior Geral das Forças Armadas da Rússia. Com a obra de 1997 "Fundamentos da Geopolítica: O Futuro Geopolítico da Rússia", um tratado de 600 páginas que fez vendas significativas, Aleksandr Dugin tornou-se, enfim, um autor e especialista respeitado. O livro tornou-se rapidamente parte do currículo da Academia do Estado-Maior General, de outras academias militares e da polícia e de algumas instituições de elite do ensino superior. O especialista da Hoover Institution John B. Dunlop escreveu que "talvez não tenha havido outro livro publicado na Rússia durante o período pós-comunista que exerceu uma influência sobre as elites militares, policiais e de política externa russas comparável" à da obra de Aleksandr Dugin. Os livros anteriores do autor enveredavam pela numerologia e outras práticas místicas, ordens esotéricas, maçonaria, e ainda temas como os cavaleiros templários e os rosacruzes. Em "Fundamentos da Geopolítica", o filósofo ofereceu uma análise muito mais sóbria e evitou o misticismo e a metafísica. No entanto, o tema de uma batalha cósmica entre o bem e o mal ainda fazia parte da tese de Dugin, que postulava um antagonismo fundamental entre civilizações "baseadas em terra" e "marítimas", ou "eurasianismo" e "atlanticismo", este último representado principalmente pelos Estados Unidos e pela Inglaterra, e o primeiro pela Rússia. A "luta espiritual" que o livro defendia inspirava-se, entre outros, em Carl Schmitt, representante proeminente do nazismo alemão. O dissidente político que gerava muita controvérsia sublinhava os valores das civilizações baseadas na terra como os do tradicionalismo: "A dureza da terra é culturalmente incorporada na dureza e estabilidade das tradições sociais". E depois enumerava esses valores: comunidade, fé, serviço e subordinação do indivíduo ao grupo e à autoridade. Eram tradições que se opunham, segundo vincava, aos valores da civilização marítima: mobilidade, comércio, inovação, racionalidade, liberdade política e individualismo. Ou, de uma forma mais simplista: a Eurásia era positiva e o Ocidente negativo. A outra mensagem central do livro era a de que, para a Rússia, só haveria duas hipóteses: império ou fracasso. Aleksandr Dugin analisou que o nacionalismo russo tem um "âmbito global", associado mais ao "espaço" do que aos laços de sangue. "Fora do império, os russos perdem a sua identidade e desaparecem como nação." A visão do "guru" nacionalista é de que o destino da Rússia é liderar um império eurasiáticoo que se estende "de Dublin [Irlanda] a Vladivostok [cidade russa junto à fronteira com a China e com a Coreia do Norte]". Como nota o site norte-amerficano "The Bulwark", num país que "cambaleava, numa transição "mal conseguida" para uma democracia assente no mercado e que lidava com a perda abrupta do estatuto de superpotência, o apelo à grandeza imperial encontrou bases férteis, e apresentou-se como uma retórica empoderadora junto das elites militares e políticas. AS PREOCUPAÇÕES DE ALEKSANDR DUGIN COM A GUERRA No seu último texto conhecido, Aleksandr Dugin manifesta-se apreensivo. O autor receia que a liderança da Rússia pense que pode declarar vitória depois de "manter" Donets, Luhansk e Kherson em mãos russas, ou talvez depois de tomar toda a "Novorossiya" [Nova Rússia, a união das intituladas Repúblicas Populares], mas deixando o resto da Ucrânia "no poder de nazis e globalistas". O "guru" insiste que, neste momento, a Rússia não pode contentar-se com nada que não seja o controlo total de toda a Ucrânia, porque "Cristo precisa disso" e porque sair significaria a "morte, tortura e genocídio" de milhões de crentes ortodoxos. Recorrendo a um dos seus temas familiares, afirma: "Não nos tornaríamos apenas espectadores, mas participantes do Apocalipse."
GUERRA NA UCRÂNIA
Do ocultismo à veneração do nazismo e do imperialismo russo: quem é o homem a quem chamam "o cérebro de Putin"?
Aleksandr_Dugin Fars Media Corporation (Https://Commons.Wikimedia.Org/Wiki/File:aleksandr_dugin_13981126000.Jpg)
Aleksandr Dugin tem como temas centrais da sua doutrina o nazismo, ocultismo e o fim dos tempos. Considerado como o "Rasputin de Putin", ascendeu de forma misteriosa aos quadros militares mais elevados e defende que só há duas hipóteses para o país: a glória imperialista ou o absoluto fracasso
2 MAIO 2022 14:46
Catarina Maldonado Vasconcelos
Catarina Maldonado Vasconcelos
Tido no passado como um "marginal excêntrico", Aleksandr Dugin tornou-se em pouco tempo um "especialista" russo próximo ao poder. Em 2001, pouco depois de Vladimir Putin ter assumido a Presidência da Federação Russa, o "filósofo" já tinha estabelecido laços estreitos com a administração presidencial, com os serviços secretos, Forças Armadas russas e mesmo com a Duma [Parlamento russo]. De acordo com o site norte-americano "The Bulwark", chegou mesmo a tornar-se consultor do presidente da Duma, Gennady Seleznev, e do principal conselheiro de Putin, Sergei Glazyev. Nesse momento, a imprensa russa, ainda relativamente livre, começou a caracterizar o "eurasianismo de Dugin" como uma nova ideologia favorecida pelo Estado.
O “movimento da Eurásia”, a doutrina que pedia resistência em relação aos "atlanticistas", influenciou funcionários do Governo, órgãos dos 'media' locais e membros de serviços secretos e de segurança do país. Em 2003, o movimento já se tinha internacionalizado e estava presente em 29 países da Europa, América e Médio Oriente, bem como nas ex-repúblicas soviéticas. A sua ala mais ativa era a União da Juventude Eurasiática, muito focada no ativismo pró-Kremlin na Ucrânia.
MAS AFINAL QUEM É ALEKSANDR DUGIN?
Há mais de 25 anos que Aleksandr Dugin, apelidado de o "cérebro de Putin" ou até de "Rasputin de Putin", fala sobre uma eterna guerra civilizacional entre a Rússia e o Ocidente e sobre o destino da Rússia de construir um vasto império eurasiático, começando com a "reconquista" da Ucrânia. A guerra que eclodiu a 24 de fevereiro é um marco que a visão do dissidente e "filósofo" político já profetizava.
Não há provas concretas de que o homem de 60 anos mantenha contacto com Vladimir Putin, mas a influência política que Aleksandr Dugin exerce é inegável, tal como a sua proximidade às classes dominantes e à elite russa, sustenta o site "The Bulwark". O "Financial Times" em Moscovo entrevistou várias vezes esta figura controversa e admite não ter conseguido decifrar o grau de envolvimento de Aleksandr Dugin com Putin.
O FASCISMO E O OCULTISMO DE ALEKSANDR DUGIN
Aleksandr Dugin é um autoproclamado fascista, embora seja dos que defendem que "o verdadeiro fascismo nunca foi tentado". Tentou abandonar o rótulo, mas a ideologia que professa não mudou muito. Num livro datado de 2017, que versava sobre a ascensão do novo nacionalismo na Rússia, é caracterizado como "um ex-dissidente, propagandista, 'hipster', poeta, guitarrista, que emergiu da era libertina e boémia de Moscovo pré-perestroika para se tornar um intelectual agitador, um conferencista na academia militar e, finalmente, um agente do Kremlin".
A obsessão que manteve mais presente ao longo da vida foi o ocultismo. Um vídeo de 1995 mostra o dissidente político, em Moscovo, a exaltar o legado do mágico e mercenário Aleister Crowley, por meio de um poema. Na sua primeira aparição na televisão russa, em 1992, foi descrito como um "comentador especialista" num documentário que explorava os segredos esotéricos do Terceiro Reich, que afirmava ter estudado nos arquivos do KGB.
A VIDA E OBRA... ACERCA DA MORTE
Apesar de hoje ser crítico daqueles a que chama de "nazis ucranianos", em tempos escreveu um poema que enunciava o advento apocalíptico de um "avatar", que culminava com um "radiante Himmler" a emergir do túmulo. Mais tarde, Aleksandr Dugin negou a autoria destes versos, mas o excerto já tinha sido publicado no seu site com um pseudónimo que já tinha reconhecido como seu.
A obra de Aleksandr Dugin também inclui um ensaio, datado de 1997, que propunha que o assassino em série russo Andrei Chikatilo, autor da morte de mais de 50 mulheres e crianças entre 1978 e 1990, deveria ser considerado um praticante de "sacramentos" dionisíacos nos quais o algoz e a vítima transcendem o seu "dualismo metafísico" e se tornam um só. Muitas declarações lhe são atribuídas no que concerne ao júbilo de viver no “fim dos tempos”.
Muitos detalhes da biografia de Dugin são desconhecidos, também devido a uma mistificação deliberada. Uma das teorias defendidas é a de que o pai do filósofo russo era coronel ou tenente-general do GRU, a temível agência de inteligência militar soviética, tendo usado essa posição para facilitar o acesso às elites militares. No entanto, o investigador Anton Shekhovtsov afirma que o pai de Aleksandr Dugin era uma autoridade da alfândega soviética, mais tarde russa. O jornalista do "Financial Times" que entrevistou Dugin alegou que as travessuras juvenis e atos de rebeldia do dissidente político - que incluíam o envolvimento, aos 19 anos, num círculo que se interessava pelo misticismo com uma inclinação neofascista e que se reunia em locais subterrâneos - fizeram com que o pai fosse transferido do GRU para o serviço de alfândega.
Expulso da faculdade por manter atividades controversas, como a tradução e publicação 'samizdat' [método que contornava a censura soviética] de obras com uma inclinação mística do intelectual italiano de extrema-direita Julius Evola, Aleksandr Dugin chegou a exercer como professor de idiomas e tradutor. Em 1988, contudo, já estava enredado no movimento "patriótico, antissionista e antissemitista" designado "Memória", tendo sido expulso por práticas satânicas. Mais tarde, viajou para a Europa e começou a estabelecer laços com figuras da extrema-direita, como o autor francês do contra-iluminismo Alain de Benoist.
A DEFESA DO SANGUE E DA TERRA
Após a dissolução da União Soviética, Aleksandr Dugin passou a envolver-se em vários grupos marginais que tentavam sintetizar a ideologia de extrema-esquerda e extrema-direita. Esses movimentos incluíram o Partido Nacional Bolchevique que cofundou com o poeta Eduard Limonov. Num ensaio de 1992, Aleksandr Dugin fez a defesa do termo "vermelho-castanho", que dizia serem "as cores naturais do [nosso] sangue e solo". Outro artigo, de 1997, saudava o renascimento de um novo fascismo russo, com as cores da terra e do sangue.
Quando concorreu à Duma, em 1995, pelo distrito de São Petersburgo, o filósofo russo obteve, no entanto, menos de 1% dos votos, apesar do cartaz de campanha que prometia: "Os segredos serão revelados."
A ascensão aconteceu sem a opinião pública se ter dado conta. As ligações misteriosas a os militares russos levaram-no, durante a década de 1990, a tornar-se professor na Academia Militar do Estado-Maior Geral das Forças Armadas da Rússia.
Com a obra de 1997 "Fundamentos da Geopolítica: O Futuro Geopolítico da Rússia", um tratado de 600 páginas que fez vendas significativas, Aleksandr Dugin tornou-se, enfim, um autor e especialista respeitado. O livro tornou-se rapidamente parte do currículo da Academia do Estado-Maior General, de outras academias militares e da polícia e de algumas instituições de elite do ensino superior. O especialista da Hoover Institution John B. Dunlop escreveu que "talvez não tenha havido outro livro publicado na Rússia durante o período pós-comunista que exerceu uma influência sobre as elites militares, policiais e de política externa russas comparável" à da obra de Aleksandr Dugin.
Os livros anteriores do autor enveredavam pela numerologia e outras práticas místicas, ordens esotéricas, maçonaria, e ainda temas como os cavaleiros templários e os rosacruzes. Em "Fundamentos da Geopolítica", o filósofo ofereceu uma análise muito mais sóbria e evitou o misticismo e a metafísica. No entanto, o tema de uma batalha cósmica entre o bem e o mal ainda fazia parte da tese de Dugin, que postulava um antagonismo fundamental entre civilizações "baseadas em terra" e "marítimas", ou "eurasianismo" e "atlanticismo", este último representado principalmente pelos Estados Unidos e pela Inglaterra, e o primeiro pela Rússia. A "luta espiritual" que o livro defendia inspirava-se, entre outros, em Carl Schmitt, representante proeminente do nazismo alemão.
O dissidente político que gerava muita controvérsia sublinhava os valores das civilizações baseadas na terra como os do tradicionalismo: "A dureza da terra é culturalmente incorporada na dureza e estabilidade das tradições sociais". E depois enumerava esses valores: comunidade, fé, serviço e subordinação do indivíduo ao grupo e à autoridade. Eram tradições que se opunham, segundo vincava, aos valores da civilização marítima: mobilidade, comércio, inovação, racionalidade, liberdade política e individualismo. Ou, de uma forma mais simplista: a Eurásia era positiva e o Ocidente negativo.
A outra mensagem central do livro era a de que, para a Rússia, só haveria duas hipóteses: império ou fracasso. Aleksandr Dugin analisou que o nacionalismo russo tem um "âmbito global", associado mais ao "espaço" do que aos laços de sangue. "Fora do império, os russos perdem a sua identidade e desaparecem como nação." A visão do "guru" nacionalista é de que o destino da Rússia é liderar um império eurasiáticoo que se estende "de Dublin [Irlanda] a Vladivostok [cidade russa junto à fronteira com a China e com a Coreia do Norte]".
Como nota o site norte-amerficano "The Bulwark", num país que "cambaleava, numa transição "mal conseguida" para uma democracia assente no mercado e que lidava com a perda abrupta do estatuto de superpotência, o apelo à grandeza imperial encontrou bases férteis, e apresentou-se como uma retórica empoderadora junto das elites militares e políticas.
AS PREOCUPAÇÕES DE ALEKSANDR DUGIN COM A GUERRA
No seu último texto conhecido, Aleksandr Dugin manifesta-se apreensivo. O autor receia que a liderança da Rússia pense que pode declarar vitória depois de "manter" Donets, Luhansk e Kherson em mãos russas, ou talvez depois de tomar toda a "Novorossiya" [Nova Rússia, a união das intituladas Repúblicas Populares], mas deixando o resto da Ucrânia "no poder de nazis e globalistas".
O "guru" insiste que, neste momento, a Rússia não pode contentar-se com nada que não seja o controlo total de toda a Ucrânia, porque "Cristo precisa disso" e porque sair significaria a "morte, tortura e genocídio" de milhões de crentes ortodoxos. Recorrendo a um dos seus temas familiares, afirma: "Não nos tornaríamos apenas espectadores, mas participantes do Apocalipse."
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